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by Ronize Aline
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3.6.05
A Gruta Eu queria ser um grande jogador de futebol, mas não tinha lá muito jeito com a bola. Nunca era escolhido para o time. Pouco a pouco eu via o meu sonho ficar cada vez mais distante. Até o dia em que o Paulinho me contou um segredo. Mas ele avisou que era um segredo tão segredo que eu não podia contar nem para o meu melhor amigo, que no caso era ele mesmo. O Paulinho falou que esse segredo ia fazer de mim um craque, só que isso tinha um preço. Mas cadê que eu prestava atenção. Ficava me imaginando um jogador famoso, de um time estrangeiro, aparecendo na televisão para todo mundo ver. Até a Carol da terceira série, que vivia me esnobando, ia ficar impressionada com o meu talento. No dia seguinte lá estava eu na casa do Paulinho para irmos à tal gruta que escondia o segredo que ia me tornar o melhor jogador de Vila Andorinha. Não, o melhor do Brasil. Quando perguntei se ele já tinha feito algum pedido à coisa que se escondia na gruta, ele me olhou assustado e disse que tinha medo demais para isso. Então comecei a ficar com medo também. Tive de entrar sozinho na gruta porque o Paulinho tremia mais que gelatina de aniversário. Quando me vi lá dentro na escuridão, de frente para o bicho ruim, entendi o medo do Paulinho. Forcei a vista para enxergar algo mas só conseguia ver dois olhos brilhando intensamente. Havia um cheiro podre no ar. Senti um arrepio gelado no corpo, minhas pernas ficaram bambas, minhas mãos suavam, meu coração batia mais do que quando via a Carol no recreio. Aqueles olhos pareciam dois jamelões que quando caem na roupa da gente deixam uma mancha roxa difícil de sair. Eu sabia que carregaria aquela mancha para sempre, recordação de um pacto que um dia teria que ser pago. Mas a minha vontade de ser craque era maior do que meu medo. O juiz apita. Titular absoluto da seleção brasileira, olho para a bola. Calculo a distância. Esse pênalti está no papo. Só depende de mim o campeonato. Nada mais tira isso da gente. Levanto a cabeça. O goleiro olha para mim com seus dois jamelões roxos e sinto o mesmo arrepio, as mesmas pernas bambas, as mãos suando, o mesmo cheiro ruim. Chegou a hora de pagar a minha dívida.
Ronize Aline postou às 21:24
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