30.11.04
Era uma mulher de raras palavras, falava pelo olhar. Educara seus filhos sem um único grito. Apaixonara-se e casara-se sem jamais recorrer a uma declaração de amor. Amizades, não as tinha. Suas orações eram sempre silenciosas.
Um dia acordou mais cedo do que de costume e quando os demais levantaram assustaram-se com o falatório no quintal. Conversava com a vizinha. Falava tanto que a conversa se transformou num monólogo. Adentrou a sala sem parar de falar. Cozinhou, limpou, lavou, passou; sempre a tagarelar. Eram histórias, reclamações, lembranças, confissões. Palavras contidas por tanto tempo jorravam sem pedir licença.
À noite, deitou-se ao lado do marido, que adormeceu no meio da ladainha. Quando se calou, todos já dormiam. Se soubessem que na manhã seguinte sua voz não acordaria talvez tivessem ido dormir mais tarde.
Foto de Misha Gordin
27.11.04
ode aos espinhos
há de se arrancar
os espinhos
e jogar fora as rosas
espalhar
os espinhos
pela nossa cama
nosso café da manhã
nossa conversa
discutir os espinhos
devorar os espinhos
dormir com os espinhos
há de se esquecer as rosas
e celebrar
os espinhos
incomodam
ferem
machucam
nos ensinam
amadurecem
mantêm-nos alertas
os espinhos
há de se cultivar.
( nov/2004)

23.11.04
Onde não se responde
Literatura e Internet: essa relação tem dado pano pra manga. Mas não é mais um debate que pretendo começar aqui, e sim destacar uma iniciativa que visa a congregar essas duas vertentes. As Edições Arteclara estão lançando a Coleção Literatura Brasileira e Internet, que pretende carregar a produção da rede para as páginas impressas. E a coleção já começa com o pé direito: o primeiro volume é Onde não se responde, da nossa doce Afrodite Claudia Letti.
Claudia estará lançando essa coletânea de posts, crônicas e poesias publicadas no seu Afrodite sem Olimpo na próxima quinta-feira, dia 25, a partir das 19 horas, na própria Arteclara (Rua Lopes Quintas, 180, Jardim Botânico).
Vejo vocês lá!
19.11.04
MOVIMENTO LITERATURA URGENTE
(deu no Marcelino)
Impulsionados pelo fato de a elaboração de uma Política Nacional do Livro, Leitura e Bibliotecas pelo Ministério da Cultura contar com a participação de pouquíssimos escritores, Marcelino Freire, Joca Terron e Nelson de Oliveira, entre outros, deram a largada ao Movimento Literatura Urgente. O objetivo é apresentar propostas de Políticas Públicas para a Literatura que agraciem Programas de Fomento à Criação Literária, visto que aqueles de fomento à leitura e formação de público já vêm recebendo boa atenção por parte do MinC. O grupo chegou a algumas propostas mínimas e tem encontrado abertura por parte do Ministério para discussão.
Mas é preciso haver mais participação. Escritores, poetas e ensaístas estão sendo convocados para uma mobilização mais ampla. Para isso foi criado um forum virtual visando a ampliar o debate. Quem quiser se associar pode escrever para forumliteratura-subscribe@yahoogrupos.com.br. Outra forma de participação é subscrevendo o documento do Movimento Literatura Urgente pelo endereço eraodito@uol.com.br.
Já estou nessa!
17.11.04
/dobra-dinha/
Com três anos de atraso - já que ambos foram lançados em 2001 - vi-me envolvida com eles eram muitos cavalos, de Luis Ruffato (Boitempo Editorial), e Memória dos Barcos, de Marcelo Moutinho (7Letras). Vamos supor que o acaso (senão entraremos em uma discussão filosófica por demais profunda e demorada) tenha os colocado em minhas mãos quase ao mesmo tempo. Não vou revelar qual precedeu em minha leitura, apenas que o resultado foi encantador.
eles eram muitos cavalos é um romance, uma novela, uma sucessão de contos, ou sei lá o quê. Assim como Fanny Abramovich, que assina a orelha, confessa não saber ao certo o que terminou de ler, também eu não saberia nomear os fragmentos que compõem a obra. E, depois de imerso no texto frenético de Luiz Ruffato, nomear é o que menos importa. Com uma narrativa entrecortada que parece estar sempre no limiar do ser e do não ser, o autor mostra flashes de histórias urbanas que muitas vezes parecem carecer de um fio condutor. Mas então percebemos que essas rupturas, essas continuidades descontinuadas é que desenham a poesia do texto - mesmo que, à primeira vista, poesia não seja o que mais salte aos olhos nos casos narrados. Ruffato narra (constrói?) instantâneos captados na vida (supostamente) real e, ao transformar vidas em palavras (ou utilizar as palavras para criar vidas), ele recria a própria criação.
Agora, vire o disco, troque o filme, tome outro caminho. Memória dos Barcos toca em outra sintonia, sendo igualmente repleto de momentos encantadores - a começar pelo próprio título que (teria sido novamente o acaso da escolha?) anuncia o ritmo da narrativa de Marcelo Moutinho. Os dez contos, independente da diversidade temática, deslizam suavemente pelas palavras precisas e preciosas de Moutinho. O autor parece lapidar uma a uma, sem pressa, desgustando-as e antecipando nosso prazer em degustá-las. Como em "Rebento", conto extraordinário que vai aos poucos despindo-se de sua casca inicial para delicadamente mostrar sua nova pele. Aproveitando o título do livro, poderia-se dizer que ler Memória dos Barcos é acompanhar a minuciosa e reveladora construção de algo, por exemplo, de um barco, que se mostra a princípio despretensioso. Não chega ferindo, mas seduzindo. Não revela à primeira vista, é preciso desvendá-lo. E então quando chegamos ao final estamos boquiabertos com o aquilo em que se transformou. Citando Antônio Torres, que assina a orelha, Marcelo Moutinho "escreve como quem pinta quadros em cores vivas". E eu diria que lê-lo é sentar no cais e observar o movimento malemolente desses quadros vivos, desses barcos, dessas memórias, dessas palavras que flutuam nas ondas à espera de nossos olhos atentos.
A sugestão da dobradinha é: escolham a ordem (ou sorteiem ao acaso) e leiam Memória dos Barcos e eles eram muitos cavalos. A contraposição de ritmos é imensamente deliciosa para quem gosta de se aventurar pelas diferentes formas de se contar uma história. Ou várias.
13.11.04
champanhe, please
os morangos sob o creme antecipavam a acidez inevitável do momento
um arroto involuntário mergulhou tudo à sua volta numa decadência insuspeita
amigos?
bah, isso não existe,
e lancei-lhe aquele olhar faca-afiada como que para me fazer entender
mensagem do dia dos namorados no jornal
cesta de café da manhã
lingerie preta
e um arroto assumindo as vezes de ponto final
o retrato na carteira de identidade não prenunciava a desfaçatez enrustida, dúvidas
dúvidas?
não são dúvidas depois de nove anos, três traições e um rombo na conta bancária
é cara-de-pau mesmo!
a infância pobre no interior do estado vizinho forjou o homem
o caso com a mulher do chefe forjou o canalha
a antiga amiga de infância havia sido mais fácil
há certos laços, entende?
e não quis ouvir o resto da explicação
afinal em duas semanas ela voltaria para a cidadezinha no interior do estado vizinho
o que são duas semanas?
orgulho é entulho que não faz falta
houvera outra
sem nome, sem marca de batom, sem profissão
apenas uma chamada perdida no celular cujo número fiz questão de perder
babaca!
a primeira apunhalada demorou a cicatrizar
agora faz apenas cosquinha
borbulhas, que vez por outra vêm à superfície e me intoxicam de idéias perversas
borbulhas...
não há de ser um arroto o derradeiro gran finale dessa história
algo mais?
champanhe, please
11.11.04
Lendo sobre O Opositor, novo livro de Luis Fernando Veríssimo, da Coleção Cinco Dedos de Prosa da Objetiva e que trata do polegar, lembrei-me de uma matéria que fiz sobre a participação dele no Sempre um Papo, em agosto no Rio - que, não sei o por quê, não coloquei aqui no Palavra&Tal. Pois então, aproveitando a deixa, segue o texto que conta um pouco o que foi aquele encontro. Nunca é demais saber o que se sabe pela cabeça de um dos raros escritores que vivem de literatura no Brasil.
Encontro com Luis Fernando Veríssimo
Encontrei-me com Luis Fernando Veríssimo. Bem, não foi um encontro a dois como o título pode estar sugerindo, mas para mim teve um gostinho especial depois de ter sido uma das vencedoras do concurso de contos promovido pela revista Paralelos e o Portal Literal, cujo personagem principal era o próprio escritor. Botei o meu O Melhor das Comédias da Vida Privada (prêmio do concurso) debaixo do braço, reboquei o Marco e tomei o rumo da Casa de Cultura Laura Alvim, onde aconteceu o Sempre um Papo. Ao final da conversa ele dedicou-se a autografar exemplares de seus livros, mas só o meu ganhou um "Parabéns" extra pelo concurso. Vai para a moldura.
Com Lúcia na platéia, Veríssimo começou a noite lendo a crônica Meninas do novo livro, confessando nem se lembrar de tê-la escrito. "Mas a Isa Pessôa, da Objetiva, me garante que fui eu mesmo", brincou. Durante mais de uma hora respondeu a perguntas sobre assuntos diversos, inclusive sobre sua tão decantada timidez e seu casamento. "Lúcia adora as minhas palestras pois diz que é o momento em que fica sabendo o que penso sobre as coisas", brincou o escritor, arrancando gargalhadas da platéia. Claro que a arte da escrita ocupou a maior parte da conversa. O autor, reconhecido por suas crônicas do cotidiano, declarou que só percebeu que sabia escrever quando começou a trabalhar em jornal. Ao contrário do pai, famoso por seus romances, Veríssimo contou que os três únicos romances que escreveu até hoje foram feitos por encomenda, e que não se sente nem um pouco desconfortável com isso. "Tudo o que escrevo é por encomenda, já que escrevo para jornal'. Revelou que está escrevendo mais um romance, encomendado pela editora Objetiva para uma coleção sobre os dedos da mão. Coube a ele falar sobre o polegar. E para responder a uma pergunta da platéia sobre adultério ser um tema recorrente em seus textos, voltou-se mais uma vez para Lúcia. Explicou que por ter um casamento de mais de 40 anos gosta de, pelo menos na ficção, saber como é essa coisa de amante, traição, separação. Inspiração para escrever? "A melhor inspiração é o prazo de entrega", confessou.
Outra faceta do escritor também apareceu nas perguntas: a de músico. Sua paixão pela música surgiu bem antes do jornalismo e até mesmo da literatura. Veríssimo costuma tocar com a banda Jazz6 de Porto Alegre, além de ocasionalmente fazer parte do grupo dos irmãos Caruso. "O problema é que o Paulo mora em São Paulo, o Chico no Rio e eu em Porto Alegre. Então temos que ensaiar por telefone", explicou com seu humor refinado. Mas o momento que arrancou mais risos da platéia foi quando contou sobre o show realizado em Brasília com o grupo Muda Brasil Tancredo Jazz Band (também com os irmãos Caruso), logo após a eleição de Tancredo, no qual caiu do palco e quebrou a perna. "Todos haviam bebido muito antes do show, menos eu, que só bebi água mineral. Resolvemos inovar e entrar no palco às escuras. Todos os que haviam bebido acertaram o palco, adivinha quem caiu? O pior é que ninguém levou a sério achando que era encenação. O Chico perguntava se havia algum médico na platéia e as pessoas riam."
Sobre a substituição da máquina de escrever pelo computador na literatura, o escritor ressaltou que a maior perda foi o "original" como costumava existir. "Meu pai batia o texto à máquina deixando um espaço entre as linhas para as correções. Depois ele rebatia o texto consertado. Assim, para cada livro havia uns quatro a cinco originais. Hoje você muda tudo no computador, com isso desapareceu do livro a impressão digital do autor". Sobre política, confessou que é mais difícil escrever sobre o governo Lula do que era sobre o governo FHC: "É difícil ser coerente [referindo-se às cobranças que se fazia no tempo de FHC] e ter paciência com a incoerência do governo Lula", sentenciou. E, por último, deu alguns conselhos para quem gosta de escrever: 'tente ser original, não importando se os outros não entendem a sua originalidade, leia muito e não desista'. E que tal uma lista de livros essenciais? "Os cronistas são fundamentais: Rubem Braga com seu lirismo, Fernando Sabino da época em que escrevia crônicas, Paulo Mendes Campos em sua profundidade e, para mim o melhor de todos, Antônio Maria". E para quem sempre quis saber qual dos livros de Erico é o preferido de Luis Fernando, ele revelou ser "O Continente", primeira parte de O Tempo e o Vento.
6.11.04
A Louca da Rosa
Terminei de ler A Louca da Casa, de Rosa Montero. Ela escreve como quem senta-se confortavelmente na sala de nossa casa a falar coisas que muitas vezes não ousamos pensar em voz alta. Ela escreve sobre literatura, sobre escrever para fugir da morte, sobre escritores, sobre amores, sobre apaixonar-se para fugir da morte. Sobre a roda que gira o moinho e nos faz estar aqui. É leitura de um sopro só. Mas, melhor do que contar, é deixar suas próprias palavras fluírem...
"O romance é a autorização da esquizofrenia." (p. 22 ao comentar que os escritores são os loucos com permissão)
"Uma idéia escrita é uma idéia ferida e escravizada a uma certa forma material; por isso dá tanto medo sentar-se para trabalhar, porque é uma coisa de certo modo irreversível." (p. 39)
"Os fantasmas de um escritor são aqueles personagens ou detalhes ou situações que perseguem um autor como cães de caça, ao logo de todos os livros." (p. 51, ao confessar que os delas são os anões)
"Às vezes penso que publicar um romance é como arrancar um pedaço do próprio fígado e deixá-lo em cima de uma mesa, diante da qual as pessoas vão passando e comentando impiedosamente o que lhes parece." (p. 88)
"O romance é o único território literário em que reinam a mesma imprecisão e falta de limites que reinam na exitência humana." (p. 114)
"Nossa imaginação, esse talismã secreto que se oculta, que coincidência, embaixo da língua." (p. 148)
e, citando Picasso,
"que a imaginação te pegue trabalhando".
duelo
Vitorino observava o outro a distância, e era por ele observado. Estavam assim há duas horas, pelo menos. Não poderiam continuar por muito mais tempo e seria ele, Vitorino, a tomar a iniciativa. Respirou fundo, estalou os dedos, cuspiu uma saliva ácida no chão de terra batida. Deu uma última olhada em suas botas e partiu. Começou com um primeiro passo - é assim que começam as grandes caminhadas. Não era uma longa distância que os separava, mas a tensão deixava o ar pesado e o percurso difícil de ser cumprido. Outros passos se seguiram, Vitorino fazendo questão de manter o contato visual. Temia que, se piscasse, o controle - que julgava seu - lhe escaparia. Ficaram tão próximos que podiam sentir a respiração ofegante um do outro. Uma última tomada de fôlego e Vitorino estava pronto para a derradeira ação. Sem dar tempo para que o outro reagisse, saltou e postou-se soberano sobre o dorso nu daquele alasão arisco. O duelo tinha seu vencedor.
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