by Ronize Aline

27.10.04


duelo

Vitorino observava o outro a distância, e era por ele observado. Estavam assim há duas horas, pelo menos. Não poderiam continuar por muito mais tempo e seria ele, Vitorino, a tomar a iniciativa. Respirou fundo, estalou os dedos, cuspiu uma saliva ácida no chão de terra batida. Deu uma última olhada em suas botas e partiu. Começou com um primeiro passo - é assim que começam as grandes caminhadas. Não era uma longa distância que os separava, mas a tensão deixava o ar pesado e o percurso difícil de ser cumprido. Outros passos se seguiram, Vitorino fazendo questão de manter o contato visual. Temia que, se piscasse, o controle - que julgava seu - lhe escaparia. Ficaram tão próximos que podiam sentir a respiração ofegante um do outro. Uma última tomada de fôlego e Vitorino estava pronto para a derradeira ação. Sem dar tempo para que o outro reagisse, saltou e postou-se soberano sobre o dorso nu daquele alasão arisco. O duelo tinha seu vencedor.

Ronize Aline postou às 12:19
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20.10.04


Véu




descobre-se o que era coberto

não por vontade de vê-lo

mas por sê-lo

Novidade

medo de perdê-lo

e não tê-lo

Ansiedade

como nosso torná-lo

a ninguém deixá-lo

Perversidade

e depois novamente escondê-lo

ao esquecimento submetê-lo

Fatalidade


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o medo atrofiou-lhe as pernas, secou a boca, produziu a gosma inodora que escorria pela testa, arrepiou os cabelinhos da nuca, retesou os músculos do antebraço, anestesiou as caraminholas que zuniam na cabeça, revirou o estômago, fez tremer as mão e, last but not the least, deu-lhe o maior gozo que jamais experimentara


Foto de Misha Gordin

Ronize Aline postou às 23:11
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13.10.04
a força da sua mão direita na minha face esquerda foi o que restou da última meia hora do nosso amor. Houve paixão, houve ciúme, houve desacordo, houve admiração, houve volúpia, houve arrependimento, houve tesão. Tudo houve. Tudo repetido, ipsis literis, na última meia hora do nosso amor. Meia dúzia de anos reduzidos a meia hora. Meia vida, meio carinho, meio olhar, meio enfrentamento. Meio você. Não havia de ter um meio fim. Aos 29 segundos, sua mão, meu rosto. Pela primeira vez algo inteiro, completo, sem meias medidas. Nossa última meia hora foi uma hora inteira

Foto de Misha Gordin

Ronize Aline postou às 20:50
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11.10.04


além dos contos de fadas


...A casa de minha avó é um oásis onde, uma vez por semana, vou repor minha sanidade. Lá, e somente lá, é possível sentar-me no colo dela e sentir meus 8 anos, o rosto lambuzado de sorvete, as duas a correr pelo parque sem saber qual se fazia mais criança. Abraçar meu avô e aspirar o cheiro almiscarado de sua loção pós-barba como quem aspira de volta uma tarde longínqua, um cavalinho de pau e ele a sustentar-me sobre aquele que me levaria a enfrentar meus próprios moinhos de vento infantis...


Esse é o trecho de uma crônica que fiz para a oficina literária do J.P. Cuenca. Dê uma passada no blog da oficina e leia a crônica inteira, além de conhecer os textos dos outros participantes.

Ronize Aline postou às 22:19
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2.10.04
Tarantela, polenta e truco

Era uma vez Giuseppe Del Marco que morava em Cavalese di Fieme, no Trento. Um dia ele conheceu Catherina Rospocher, casaram-se e tiveram Celeste, nascido em Mezzomonte. Por sua vez, Celeste conheceu Maria Borinelli, de Callianno e, entre outros filhos, tiveram Alberto Del Marco. Em algum momento da história, Del Marco virou Dalmarco. Celeste e Maria vieram para o Brasil em busca de novas terras e oportunidades estabelecendo-se em Santa Catarina. Alberto conheceu Magdalena Crippa e juntos tiveram nove filhos, entre eles José Dalmarco. José enamorou-se de Olga Florentino Porto e resolveram partilhar a vida juntos, os frutos foram seus dez filhos. A primogênita foi Eulina, que conheceu Américo vindo do Rio de Janeiro, casaram e...aqui estou eu.

Essa linhagem toda foi revivida no último final de semana quando minha mãe, eu, tios e primos voltamos a nossos antepassados para fazer a opção pela cidadania italiana. A cerimônia transcorreu em clima de muita emoção reforçando os laços entre os dois países. No total, 1700 pessoas do Brasil inteiro foram até Rio do Sul - a minha cidade-natal - fazer a escolha pela cidadania num evento que pode até entrar para o Guiness Book, pois foi o maior do gênero no mundo, segundo declaração do Cônsul da Itália para Santa Catarina e Paraná, Mário Trampetti. O direito ao titulo de cidadão italiano foi concedido aos descendentes de trentinos há pouco tempo e tem prazo para terminar: dezembro de 2005, eis o por que da pressa e do grande volume de pessoas num mesmo evento. Esse benefício era negado porque o território de Trento pertenceu ao Império Austro-Húngaro no período em que ocorreu a chamada velha imigração, no século 19.



No momento em que assinei a opção pela cidadania italiana, minha mãe atrás de mim, meu padrinho Euclides (de camisa branca) e meu tio Juca (de camisa verde)



Minha mãe expressando sua opção pela cidadania italiana, meu padrinho, meu tio e meu primo Jean


Segundo o Jornal de Santa Catarina do dia 27/09/2004, a escolha de Rio do Sul para a realização da solenidade obedeceu a um critério legítimo. Para a Federação dos Circolos do Brasil, a cidade é considerada o centro geográfico da região com maior número de descendentes no Estado. Em Santa Catarina, Nova Trento, Rodeio e Rio dos Cedros lideram, respectivamente, o índice.



Foto publicada no Jornal de Santa Catarina na qual, dentre 1700 pessoas, minha mãe e eu fomos captadas pela lente (dentro do círculo verde)

Ronize Aline postou às 01:20
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