by Ronize Aline

14.7.04
cores proibidas


Não podia ver absolutamente nada. Os batentes da janela estavam fechados. Não havia luz escoando por parte alguma. Sentia o ar cada vez mais frio, mas era apenas a frieza de seu peito descoberto. Aos tatos, ajeitou a gola bem engomada de seu roupão. Estendeu o braço. Estava nua sob o roupão. Não conseguia se lembrar de quando poderia ter se despido por completo. Também não se recordava de quando vestira aquele roupão pesado. Ah, era isso! Esse quarto era contíguo àquele de onde se avistava o rio. Provavelmente entrara nele antes de Yuchi e trocara de roupa. Nesse momento, Yuchi deveria estar do lado de fora da porta corrediça. Por fim, apagaram também as luzes no quarto vizinho. Yuchi saiu do quarto escuro para entrar em outro ainda mais escuro. Kyoko mantinha os olhos firmemente cerrados. Foi então que tudo começou, terminando em um sonho. Tudo acabou em uma perfeição incontestável.

O jogo do mostra-esconde revelando muito mais do que palavras explícitas. O trecho acima faz parte do livro Cores Proibidas, de Yukio Mishima, ambientado na dualidade de mundos vivida por um homossexual no Japão: o mundo gay das relações instantâneas e o pesado mundo heterossexual do casamento e das amantes por conveniência. O trecho narra o ato sexual entre Yuchi, o protagonista, e Kyoko, mulher casada e apaixonada pelo rapaz, sem no entanto abrir mão da poesia.



Mishima cometeu suicídio ritual aos 45 anos no mesmo dia em que terminou seu último livro, A queda do anjo. Recentemente foi lançado no Brasil outro livro seu, Confissões de uma Máscara, de 1949.

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Faz sete meses e ainda sonho com ele toda semana, às vezes até três noites seguidas. O que mais me deixa com o coração apertado é saber que não poderei mais enredá-lo com meus braços. Sinto falta do carinho, do abraço apertado, do cheiro de pai. Em muitos dos sonhos sei que ele está para morrer e abraço-o muito, querendo aproveitar enquanto não acordo. Num dia desses ele morreu em meus braços. Mas em muitos ele melhora e não chega a morrer.

Alunos incríveis com os quais tive o prazer de conviver no semestre passado estão com um projeto interessantíssimo para quem está apenas começando o curso de Jornalismo. É a revista virtual Rio em Revista, na qual carinhosamente colocaram um texto (seção Livros) já postado aqui no Palavra & Tal sobre meu pai, escrito logo após o falecimento.



Ronize Aline postou às 19:45
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3.7.04
em cont[R]os

Ela atravessou a rua sem olhar para a esquerda. Olhava o fluxo de carros, ainda sentindo a cabeça latejar pela última imprudência. Procurava os carros, fugia dos carros. Olhava para a direita, atenta, sem nem mesmo dar-se conta do sinal verde brilhando sobre si. E assim venceu a distância entre as duas margens da rua. Margens que separavam possibilidades do ser e do não ser; do estar-se aqui ou acolá.

Se tivesse olhado para a esquerda o teria visto. Camisa jeans desabotoada até o meio do peito, grossa corrente dourada com um crucifixo na ponta, resquícios de gel no cabelo lembrando a noite passada em ambientes esfumaçados. Teria achado-o bonito. Olharia uma segunda vez, perderia o passo, quase atropelada. Iria recuperar-se do susto amparada nos braços daquele desconhecido, que passaria um lenço de seda sobre sua testa enquanto lançava um olhar furtivo para o seu decote pronunciado.

Se tivesse olhado para a esquerda não teria aceitado o convite de Osmar, o vizinho chato que não saía do seu pé. Não chegaria nem mesmo a ouvir os planos de Osmar, o emprego na loja do tio, o dinheirinho certo no fim mês, a casinha própria com quarto para os gêmeos, os almoços de domingo na casa da sogra. Não seria a mãe zelosa, a pacata dona-de-casa, porque mulher de Osmar não trabalha fora.

Se tivesse olhado para a esquerda, teria que dar duro para conseguir uns trocados e encher a mesa. Sem trabalho fixo, esse outro dizia que tinha uns negócios mas dinheiro que era bom, nada! Sem casa fixa, iria viver se mudando assim que fossem despejados por falta de pagamento do aluguel. Pelo menos três vezes por semana fugiria da polícia sem nem mesmo saber o por quê, mas jurando que seu homem não havia feito nada de errado. E depois de passar o dia inteiro chorando sozinha, em algum muquifo qualquer, ele chegaria cheirando a colônia barata, a abraçaria por trás como ela jamais fora abraçada por Osmar, falaria umas palavras que a deixariam ruborizada e acabariam na cama.

Se tivesse olhado para a esquerda, não teria um marido que era motivo de inveja das amigas, dois filhos educadíssimos que deixariam qualquer mãe orgulhosa. Se tivesse olhado para a esquerda, teria se apaixonado.

Ronize Aline postou às 18:55
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