Entrelinhas
Eu sou mulher de livros,
histórias, conversa fiada
de fazer sopa de letrinhas
recitar poemas
e esquecer a tabuada
eu sou mulher de palavras
as escritas, faladas, esquecidas
principalmente as não-ditas
a de idéias que não saem do papel
cruel
sou mulher de dramas,
tragédias, comédias
que reescreve o final da
história
se embola
e começa tudo outra vez.
(Ronize Aline, de 1993)
De nome em nome
Outro dia, em uma sala de espera de um consultório médico, ouvi a atendente comentar com uma paciente: "Nossa!, o seu nome tem duas letras ´i´, o meu infelizmente não tem nenhuma. Eu acho que é a letra ´i´ que dá força ao nome". Há nomes que achamos mais bonitos do que outros, mas é mais difícil alguém comentar sobre a força que as letras têm dentro de um nome.
Quando ouvimos um nome que não conhecemos, queremos saber de onde surgiu, o que significa. Uma das perguntas que sempre me fazem é sobre a origem de meu nome. Não sei dizer o que ele significa, até porque nunca encontrei-o em nenhum daqueles livros que falam sobre nomes; mas sei de onde foi retirado. Havia, anos atrás, um concurso em uma dessas revistas - não lembro se era Cruzeiro, Realidade ou similar - que escolhia o bebê mais bonito do mês. Em um determinado mês, a vencedora foi uma menina chamada Ronize. Minha mãe gostou tanto do nome que quando engravidou de mim escolheu-o para, junto com Aline, me batizar.
O nome é um presente que recebemos ao nascer e o carregamos vida a fora. Ele imprime uma marca que pode ser um peso ou não - depende de como lidamos com ele. Para alguns, um eterno contentamento; para outros, um fardo. Amélie Nothomb (nome bonito, não?), considerada uma das melhores autoras de língua francesa da atualidade, lançou Dicionário de nomes próprios (Editora Nova Fronteira, 2003) que, apesar do nome, é um romance. Na história, o nome dos personagens são essenciais e podem, inclusive, determinar o destino deles.
Em relação a obras artísticas também os nomes muitas vezes nos intrigam. O nome da rosa - livro de Umberto Eco e posteriormente filme - tinha um título decifrado por poucos. A expressão "o nome da rosa" era usada na Idade Média para representar o infinito poder das palavras; já que a rosa subsiste por seu nome apenas, mesmo que não esteja presente. O título foi escolhido por tratar-se de um romance cujo foco principal era uma antiga biblioteca de um convento beneditino, onde as preciosas palavras eram mantidas fora do alcance dos leitores comuns.
Blogabelhas
Seriam abelhas blogueiras?
A desconfiança nossa de cada dia
Vivemos em estado de alerta. Desconfiança da nova empregada que apareceu pedindo emprego, desconfiança do garoto que se aproxima do nosso carro no sinal, desconfiança de que a declaração de amor da noite passada era puro interesse, desconfiança do e-mail que recebemos e não conhecemos o remetente. Isso me faz lembrar um poema de Augusto dos Anjos; um daqueles que grudam e não saem mais da cabeça:
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te `a lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja esta mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
(Augusto dos Anjos, Versos Ìntimos, em 100 Anos de Poesia, O Verso Edições, 2001)
Que tal, de vez em quando, soltar as amarras, esquecer a desconfiança guardada na gaveta e deixar nosso instinto nos guiar? Só não a esqueça lá para sempre, pois ela tem sua utilidade - é só saber dosar.
Livro de Cabeceira atual
ruthannzaroff.com/wonderland/
Aventuras de Alice no País das Mararavilhas e Através do Espelho - Edição Comentada (Jorge Zahar Editor, 2002)
Como é bom reviver o nonsense de Alice conversando com o gato de Cheshire ou tomando chá com o Chapeleiro Louco! O grande encanto desta edição - além de colocar Alice novamente na ordem do dia - são as notas, que nos surpreendem com outros encantos por trás da história. O Chapeleiro Louco, por exemplo, vem da expressão - muito comum na época - "louco como um chapeleiro". Essa expressão surgiu porque o mercúrio usado para preparar o feltro utilizado para confecção dos chapéus era a causa comum de envenenamento que costumava atingir os chapeleiros.
Loucos por Livros
Foto de Cora Rónai, Fotolog
A foto da Biblioteca Nacional feita pela Cora é de babar, como babaria todo louco por livros diante de tal visão. Tal qual a personagem de A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken (Jostein Gaarder e Klaus Hagerup, Companhia das Letras, 2003).
A doença da pressa - segunda parte
Dica do Blog do Gravatá para quem tem pressa: o site Book-a-minute tem centenas de obras literárias ultra-resumidas. No entanto, fica aqui a proposta do post anterior: que tal dar tempo ao tempo e se deliciar com tudo o que uma obra completa pode lhe oferecer?
A doença da pressa
O tempo perguntou para o tempo
Quanto tempo o tempo tem
O tempo respondeu para o tempo
Que o tempo tem o tempo que o tempo tem
Nessa rima infantil, a nossa angústia diária: não perder tempo. Comprimimos nossos afazeres para fazer cada vez mais coisas diferentes. E a tecnologia se ocupa de desenvolver artefatos que nos ajudem, ou pelo menos nos dêem a sensação de enxugar o tempo: as teclas de discagem rápida do telefone, por exemplo, cujo tempo poupado é na realidade ínfimo.
ruthannzaroff.com/wonderland/
E, para fazermos tanta coisa ao mesmo tempo vivemos atrasados, tal qual o coelho branco de Alice a correr de um lado para outro. A doença do mundo atual é a doença da pressa. E a palavra de ordem, aceleração, como bem apresenta James Gleick em seu livro Acelerado (Editora Campus, 2000). Os que sofrem da doença da pressa são classificados como indivíduos do Tipo A e apresentam características como impaciência, excesso de competitividade e agressividade. Desnecessário acrescentar que esses traços de personalidade vêm acompanhados de doenças cardíacas.
Há situações, mais do que outras, que nos dão a sensação de completa perda de tempo, não? Eu, por exemplo, a menos que sejam muitos andares, não consigo ficar aguardando o elevador chegar; prefiro subir pelas escadas - o movimento faz parecer que estou "ganhando" tempo. E você, qual a situação que mais lhe dá essa sensação de perda de tempo?
Que tal se tentássemos, só por cinco minutos ou menos, ficar sem fazer nada, olhando para uma bela paisagem, admirando nossos filhos brincando ou simplesmente nos desacelerando?
E para não dizerem que não falei de festivais
Festivais de livros? Sim, e por que não?
Por pequeno que seja o nosso percentual de livros per capita em relação a outros países, temos iniciativas vitoriosas que mantêm aceso esse ideal: disseminar a leitura por todos os cantos desse nosso país. Digo iniciativas vitoriosas porque uma, a Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo (RS), já está em sua 10ª edição e acontece sob a lona de um circo para dar conta de todo o público interessado. A segunda, a Festa Literária Internacional de Parati (RJ), acontece pela primeira vez esse ano e viu suas inscrições esgotadas em pouco tempo depois de abertas. Sinal de que o livro não perdeu o interesse. O que falta são os patrocinadores demonstrarem um pouco mais de interesse pela nossa cultura, já que esse foi o principal problema enfrentado pela organização de ambos os festivais.
Exterminador do Futuro (2): Cyborgs
Nos três filmes da série Exterminador do Futuro, tomamos contato com os cyborgs - os organismos cibernéticos resultantes da junção entre homem e máquina. A ficção científica tem um repertório enorme de peças - surgidas primeiramente em livros e só depois transpostas para as telas - que se dedica a eles. Segundo André Lemos (em Cibercultura - tecnologia e vida social na cultura contemporânea, Editora Sulina, 2002), o conceito de cyborg parece ter surgido na ficção científica com uma história de Arthur Clark de 1965: The City an the Stars. Fátima Régis aborda esse tema de forma pertinente em sua tese de doutorado Nós, Ciborgues: a ficção científica como narrativa da subjetividade homem-máquina, defendida em 2002 pela ECO/UFRJ.
Mas não é só o reino da ficção que se ocupa deles; do lado de cá das telas há todo um campo de estudos que se preocupa em identificá-los, decifrá-los e estudar a sua interação com o resto do meio ambiente.
A idéia de um organismo cibernético foi desenvolvida pela Nasa tendo em mente os vôos espaciais. Em tais situações, o homem encontra um ambiente diverso daquele a qual seu organismo está acostumado, daí a importância de estudos que estendessem os seus limites e possibilitassem que fossem incorporados a ele órgãos artificiais, drogas ou mesmo o uso de hipotermia com parte do seu sistema de sobrevivência.
Esses conceitos extrapolaram o circuito de estudos espaciais e passaram a incluir outras situações em que o homem se utiliza de próteses artificiais como forma de estender sua capacidade corpórea. No entanto, além do protético, alguns estudiosos como Lemos já definem um outro tipo de cyborg: os interpretativos. Nesses não há fusão entre a máquina e o corpo, mas são constituídos pela influência exercida pelos meios de comunicação de massa, pelos efeitos da sociedade do espetáculo.
Segundo esse conceito cyborg torna-se muito mais pertinente pensarmos em afinidades do que em identidade. As identidades tendem a ser fraturadas, contraditórias, parciais, não há uma essência única. São identidades flutuantes, como nos coloca Diana Damasceno em seu Biografia Jornalística - o texto da complexidade (Editora UniverCidade, 2002). Identidades que se conformam na relação com o outro - o que quer que seja esse outro, uma pessoa ou mesmo um veículo de comunicação.
Exterminador do Futuro (1): Singularidade Tecnológica
Já está sendo anunciada para a próxima semana a estréia em solo brasileiro do filme Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas. A despeito da qualidade cinematográfica - ou mesmo da já criticada falta de originalidade do enredo em relação ao segundo filme da série - a película tem como foco um tema que vem povoando à exaustão produções do gênero e que encontra no primeiro Exterminador do Futuro, do ano de 1984, um de seus marcos. O tema é a dominação da raça humana por máquinas inteligentes e um dos exemplos mais recentes - e bem-sucedidos comercialmente - é o filme Matrix e sua continuação Reloaded.
Não é só nas telas que esse tema é motivo de discussão. Em 1993, em um seminário organizado pela Nasa, Vernor Vinge (PhD em Ciências Matemáticas e também escritor de ficção científica) defendeu a idéia de que "dentro de trinta anos, teremos os meios tecnológicos para criar uma inteligência sobre-humana. Pouco depois, a era da humanidade chegará ao fim". O raciocínio é simples: se o homem pode criar uma máquina mais inteligente que ele mesmo, essa máquina certamente será capaz de criar uma outra mais inteligente do que ela, que por sua vez será capaz de criar outra mais inteligente ainda do que esta última. Em pouco tempo qualquer elo entre o homem e o computador estaria perdido.
E como esse supercomputador iria nos tratar? Vinge cita o que ele chama de Meta Regra de Ouro: "Trate os seres inferiores como você gostaria que os seres superiores o tratassem". No entanto, é só observarmos como a humanidade vem tratando os ditos seres inferiores para dirimir qualquer esperança de que, nessa hipotética situação, nós seríamos merecedores de algum tratamento condizente. Não é possível dizer com certeza o que aconteceria, por isso esse fenômeno é chamado de Singularidade Tecnológica - um momento único, um salto tecnológico que não pode ser previsto.
Vinge coloca como alternativa que essa inteligência poderia não surgir como uma máquina pura, mas a partir da interação homem-máquina. Então este não seria mais o reino da Inteligência Artificial (para saber mais sobre IA leia Datamining, de Luís Alfredo Vidal de Carvalho, Editora Érica, 2001) mas da Ampliação da Inteligência (AI). Como exemplo desta última ele cita a Internet, que apesar de tudo ainda não é capaz de prescindir do homem.
Um menino chamado Marcelo
Nasci em uma cidade chamada Rio do Sul, no interior de Santa Catarina. Como toda cidade pequena, mais nos anos 70 do que agora, as coisas e acontecimentos pareciam se perder no caminho antes de chegarem por lá. Não seria diferente com os livros; a única livraria da cidade dedicando seu espaço apenas a títulos que interessassem aos adultos (e criança lê fora da escola?, pareciam indagar). Uma das (raras) saídas para os amantes do bom livro era o Círculo do Livro, que tinha a revista mais aguardada lá de casa. No entanto, mesmo nela as opções infantis eram em pequeno número. Não lembro ao certo quantos livros infantis tive do Círculo, mas me lembro do primeiro que, confesso, escolhi pelo título. "Marcelo Marmelo Martelo" tinha um som gostoso, como se as palavras ficassem brincando de roda dentro da boca da gente. E, por ele, me apaixonei duas vezes (não que uma tenha apagado a outra, pelo contrário, só reforçou). A primeira foi assim que o recebi e li. Que garoto esperto esse Marcelo! Como eu não havia pensado nisso antes, dar às coisas o nome do que elas fazem ou para que servem? A segunda vez foi quando comecei a compreender e a me interessar pelos encantos da escrita. Que escritora esperta essa Ruth Rocha! Como eu não havia pensado nisso antes, escrever sobre um menino questionador?
Me formei em jornalismo e o texto exigido pela profissão pareceu sobrepor-se ao texto dos contadores de histórias. E por um longo tempo abandonei essa idéia de escrever literatura. Mas ela não me abandonou e, quando dei por mim, já havia se imiscuido novamente em minhas palavras. São contos, romances, crônicas, histórias infantis, que parecem descobrir uma brecha em meus textos para sugerir uma idéia aqui, uma frase acolá, afoitos para serem lançados ao papel.
De onde vem a paixão pela leitura?
É inata? Adquirida com o tempo? Em seu imprescindível Texturas, Ana Maria Machado alerta para o fato de que o gosto pela leitura nasce pelo exemplo: "se a criança nunca ouve alguém conversando sobre livros ou nunca vê alguém lendo com entusiasmo, suas chances de adquirir gosto pela leitura estarão bem reduzidas" (Ana Maria Machado, Texturas - sobre leituras e escritos, Editora Nova Fronteira, 2001).
O que concordo por experiência própria. Desde sempre me acostumei a ver meu pai lendo alguma coisa, o que provocava em mim uma grande vontade de imitá-lo e participar dessa aventura à qual se entregava com tanto prazer. Eis dois flagrantes de como a leitura me seduzia mesmo quando ainda não era capaz de decifrá-la: na foto acima com seis meses e na abaixo, com três anos. Por causa de meu pai, leio.
Já minha mãe é afeita a contar histórias. Nem sei ao certo se foi a vida que lhe presenteou com tantos casos interessantes ou se é a sua capacidade de narrar que vem transformando esses casos em histórias encantadoras. Também quis contar histórias, mas no papel. Por causa de minha mãe, escrevo.
E você, que livro está lendo?
Palavras em um livro
"Um livro não existe por si mesmo, não sobrevive como coisa em si. Um livro é uma relação; e, portanto, uma relação com o leitor. Um leitor, no singular, porque a cada leitura o livro se constrói ou se reconstrói. Apenas durante a leitura é que ele se faz 'algo', e a cada leitura um 'algo' diferente. Para alguns, o mesmo livro é uma agradável companhia, uma aventura apaixonante ou uma terrível decepção; para outros, um tempo perdido, uma leitura enfadonha ou a descoberta de uma grande verdade. Cada leitura traz consigo uma marca; marca que ao ser passada para o leitor torna-se parte dele. Se há passagem é porque ler é movimento; jamais um processo estático. Ler é percorrer caminhos, é um mover-se, cada qual em direção ao outro; o livro em direção ao leitor e este em direção ao livro. É um encontro; e como encontro só existe na dependência do outro. Um livro só se faz livro quando encontra o seu leitor. É então que ele toma a sua direção; sua existência é definida em relação àquele leitor, sempre em relação àquele leitor. Com outro, já não será o mesmo caminho, o mesmo encontro, o mesmo livro. Um outro emerge. E, da mesma forma que o livro é moldado pelo leitor, também o molda, já que ao término da leitura este já não é o mesmo, está modificado, é um leitor-livro, traz elementos de um e de outro. E para que esse leitor-livro exista é preciso que haja o livro com o qual se encontrar. Eis o outro lado da dependência."
(Ronize Aline Matos de Abreu, em O nascer da leitura, conto de 2003)
